Coluna Online : O Falatório
Terça-feira, 28 de Agosto de 2007
Foram os sábios, chegaram os especialistas !
Foram os sábios, chegaram os especialistas !
 
Chegou esta semana ao parlamento do Pica Pau, um relatório elaborado pelo nosso ilustre Deputado Quatro Riscos, em função da proposta do Parlamento em fazer um estudo sobre a actual situação do ensino no reino de Pica Pau, e a sua adequação aos futuros desafios que o Reino se propôem atingir.
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Quando analisamos a história, muitas vezes deparamos-nos com homens Sábios, que discutiam e produziam arte e ciência em vários ramos, que faziam a opinião e ditavam o futuro através dos seus ensinamentos. Temos muitos casos de homens sábios e mestres em muitas civilizações antigas, e que ainda hoje agitam pensamentos e discussões , pessoas que nos levam a refletir com as suas ideias e com a sua ciência. Encontramos pessoas sábias nas artes, na política, na ciência, na literatura, na música e num grande conjunto de áreas de saber da nossa sociedade.
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Relacionado com o saber teve origem a sofística, que se estabelece no termo que significava sábio, especialista no saber. Os sofistas eram aqueles que se apresentavam como sábios e mestres, uma espécie de professores livres e itinerantes.
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Sempre nos maravilhamos com a abrangência do saber destas pessoas; com a fluência do seu pensamento e com a sua capacidade de reflexão sobre vários temas. Muito de nós cruzamos-nos com referências a estas pessoas na aprendizagem escolar, no nosso quotidiano, entre monumentos, livros , ensaios, obras expostas e um sem número de referências feitas ainda actualmente em colóquios , seminários e pela comunicação social.
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Debatemo-nos actualmente com um problema de sectorização da ciência e das artes. Começamos a criar especialistas e a incentivar a nível social, profissional e consequentemente ao nível da aprendizagem nas universidades, esta categoria de saber, muito específico, muito pontual. Criamos as certificações, os mestrados, e uma proliferação de cursos superiores que muitas vezes é díficil explicar o objecto da aprendizagem, e qual a sua aplicabilidade em termos de sociedade ou em termos profissionais.
Penso que todos já ouvimos a célebre frase, “E quando acabares o curso, isso dá para fazer o quê?’.
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Outra questão grave é que ao agirmos tão sectorialmente no campo da aprendizagem que acabamos por criar especialistas ignorantes, pessoas que são tão especialistas, que sobre qualquer outro tema não têm abordagem, nem argumentos para conseguirem ter uma opinião consistente. Mais grave que isso é ainda o serem doutores, e cavalgando em cima desse título aventurarem-se a opinar sobre tudo, convencidos que têm autoridade para tal, baseados no seu ‘canudo’. Normalmente é essa a atitude do especialista.
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Como caso concreto podemos muitas vezes assistir aos discursos apresentados pelo nosso deputado Três Palmos, que sistemáticamente opina sobre muitas questões e raramente consegue falar um pouco do assunto em causa. Não tem propostas nem crítica que possa ser sustentada, e normalmente deriva os seus discursos para o ‘bota a baixo’ que eu sou da oposição.
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Também há uns dias, numa festa de casamento do reino, apreciei um doutor especialista, que no âmbito de uma conversa de circunstância entre casais convidados, começou a falar da sua especialidade, a informática. Começou por desbobinar a grande velocidade a sua técnica de acessos a bases de dados relacionais, a sua forma de fazer select’s, scrip’s e triggers, alguns backup’s de tabelas e a sua capacidade de criação de alguns índices, e um sem número de operações que deixaram todos mudos. Ninguém soube que lhe dizer, e ele não sabia falar de mais, que não fosse aquilo.
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Era notória a sua desconecção do mundo real, das questões da actualidade da sociedade, do desemprego, da pobreza, das taxas de juro, da situação do ensino, da política de trabalho.
Não é um ignorante, porque sabe a quota parte da sua ciência e provavelmente com muita eficiência e destreza. Não o podemos considerar culto, porque de cultura terá bem pouco, e a sua apetência pelo resto da ciência e pela participação na cultura, também não lhe foi incutida como valor e como saber.
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Estas pessoas são o símbolo do que é hoje a nossa sociedade. A massificação de seres especialistas em muito pouco e ignorantes em quase tudo! Pobre ensino !
Como resultado do referido relatório foi proposta uma reformulação curricular do ensino de Pica Pau, por forma a incluir como disciplinas obrigatórias alguma áreas relacionadas com a música, dança, literatura, e uma disciplina de sociedade e civismo.
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Estas acções curriculares serão programadas com a empresa de consultoria Pica Pau Consulting, que vai elaborar as cargas horárias, planos curriculares e respectivos professores. Serão aceites opiniões sobre a reestruturação destes cursos, bem como sugestões sobre os melhores professores nestas áreas, que se encontrem no reino.
 
Assinado e carimbado
 
O Escrivão Real
O Quadrado da Hipotenusa
26/8/2007


publicado por Quadrado da Hipotenusa às 19:58
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2 comentários:
De Monica Sofia a 28 de Agosto de 2007 às 21:35
Li muito atentamente este texto e concordo integralmente com as suas palavras!
De momento sou estudante universitária. Serve esta informação para dizer o seguinte: desde a escola primária até ao ensino secundário, temos diversas disciplinas e concomitantemente um vasto leque de temas e assuntos para trabalho de casa!Neste período académico, a informação é-nos transmitida de uma forma relativamente aprofundada, do qual com o passar dos anos dela apenas retemos o essencial! Mas nunca, na nossa vida académica estivemos tão expostos a tantos e diferentes temas!
Na faculdade propriamente dita, dependendo do curso que frequentamos, apenas nos é transmitira informação relativa a este e muitas das vezes temos cadeiras e matérias que não vemos o fim que lhe podemos destinar, e muitas vezes o que de novo aprendemos com ela!
O meu curso é muito vasto, com muitas aplicações cientificas, que nos acarreta muita disponibilidade de tempo! Mas acredito que não seja só o meu... muitos outros serão ... mas a disponibilidade de tempo que temos de dedicar à
"nossa especialização" sucumbe-nos a possibilidade de pesquisar e aprender outros assuntos do quotidiano, de forma a enriquecer a nossa cultura!
Não sei de quem será a culpa: se dos alunos que não têm a possibilidade/disponibilidade de abordar outras áreas ; se dos "superiores" que indirectamente centralizam a nossa cultura à area que escolhemos!



De JoãoSousa a 4 de Setembro de 2007 às 18:58
Entre uns e outros, que venha o diabo e escolha. Sempre se soube que a verdadeira perfeição está na simplicidade da ignorância.


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